Introdução



No dia 18 de Fevereiro de 1960 era publicado o primeiro número de um boletim mensal da paróquia do Colmeal, baptizado com o nome da freguesia onde nasceu, a do Colmeal.
Na sua apresentação simples, de tamanho bastante prático, inferior a uma folha de papel A4, tinha como cabeçalho o seu título e ladeado à esquerda com um desenho de uma colmeia e 5 abelhas e à direita do dito título, envolvido de uma aura resplandecente de luz divina, um desenho da igreja do Colmeal com três fiéis a dirigirem-se para a porta.
O cabeçalho, que ao longo das edições variava em tonalidades diferentes, (por vezes em vermelho, laranja, azul, verde, castanho, etc.), foi, a partir do número 166 (Outubro de 1980) e até ao fim da sua vida, impresso totalmente a negro como que (penso eu) a adivinhar o aproximar da hora do adeus. Por baixo do referido cabeçalho, uma tabela composta de duas colunas onde, no primeiro número estava escrito o nome do responsável e na outra, o ano do jornal, o número de edição, o local, o dia, o mês e o ano. Isto até à edição número 29 de Julho de 1962, edição esta, que deixou de ter mencionado o dia. No segundo número, a esta tabela, foi adicionada uma terceira disposta centralmente onde se podia ler o local onde era composta e feita a impressão. Na edição número 21 de Novembro de 1962, viriam a ser mencionados na primeira coluna dois nomes. Primeiro, o do fundador e por baixo o do actual director visto a inevitável sucessão de párocos. Em Fevereiro de 1970, e até ao fim da sua vida, ficou assinalado no referido espaço, apenas o nome do responsável e a informação de que o boletim era da propriedade da Igreja do Colmeal. Futuramente, já no ano de 1979 (na edição do mês de Março), foi acrescido um espaço no mesmo local mas numa segunda linha com o preço das assinaturas.
Nos primeiros anos de vida, “O COLMEAL” que anualmente custava a cada assinante 5$00, foi composto e impresso na Impressora Económica da Figueira da Foz. Em 1966 esse serviço ficou a cargo da Gráfica de Coimbra durante 13 anos, data em que começou a ser da responsabilidade da Tipografia da Comarca de Arganil.
Tudo começou no ano de 1960. Sua Exa. Rev.ª, o Senhor Arcebispo-Bispo de Coimbra (julgo ter sido Sr. D. Ernesto Sena de Oliveira) dignou-se autorizar a publicação do Boletim Paroquial, que abençoou e pediu que fosse sempre “em tudo, eco da Voz do Evangelho”. O seu fundador e primeiro responsável, foi o Padre Fernando Rodrigues Ribeiro, Pároco da Freguesia do Colmeal e dos Cepos. Na sua primeira edição, expressava a utilidade de tal jornal devido à existência de um significativo número de emigrantes nas cinco partes do mundo e principalmente na cidade de Lisboa, dizendo que seria afinal uma carta escrita para toda a família colmealense.
No seu vasto conteúdo, “O COLMEAL” teve durante muitos anos, além de toda a sua face virada para a religião, três secções que em meu entender, seriam as mais procuradas pelo olhar atento do leitor. Eram elas, A vida de O Colmeal, espaço reservado a comentários sobre os assinantes e da própria paróquia; o espaço Sempre Alegres que findou no número 126, de Agosto de 1974, tendo gracejado os seus leitores com anedotas e adivinhas, e a secção Marco do Correio que teve este nome até ao número 132 de Outubro e Dezembro de 1975, passando a chamar-se desde então de Correio do Leitor. Este espaço era praticamente uma carta aos colmealenses espalhados pelo mundo dando notícias dos acontecimentos que iam surgindo nas suas terras.
Para não deixar esquecido nenhum dos responsáveis pelo boletim, vou mencionar os nomes e respectivas datas dos Párocos da freguesia do Colmeal que ao longo de 22 anos contribuíram para a divulgação das notícias aos colmealenses:
1960 - Padre Fernando Rodrigues Ribeiro
1961 - Padre António Antunes de Brito
1963 - Padre António Mendes Antunes
1963 - Padre Mário Marques Mendes
1965 - Padre António Diniz
1968 - Padre Anselmo Ramos Dias Gaspar
1973 - Monsenhor António Duarte de Almeida
1973 - Padre Sertório Baptista Martins
1976 - Padre Manuel Pinto Caetano, este último que conduziu o boletim até à edição número 187 referente ao mês de Agosto de 1982, edição esta que seria a última, dando assim lugar à extinção de tão saboroso “correio”.
Como podemos verificar, “O COLMEAL” teve 22 anos de serviço muito importante. Não só para os colmealenses mas também para a comunidade serrana espalhada pelo mundo. Não podemos esquecer a sua existência.
Para que seja relembrado, resolvi propor ao jornal “O Varzeense” a publicação de vários artigos, comentários e opiniões, tendo como base de informação todos os números daquele boletim. Irei referir alguns conteúdos da obra em síntese, transcreverei alguns, e comentarei outros que a meu ver assim mereçam. Espero com isto, poder reavivar a memória de muitos para as passagens interessantes que terão oportunidade de ler referentes a nascimentos, casamentos, obras, conflitos, fotos, etc.
Se tal como eu, o amigo leitor tem como passatempo coleccionar jornais ou arquivar recortes, esteja atento às próximas edições. Certamente irei falar de si, da sua terra e/ou dos seus familiares.
Agradeço ao jornal “O Varzeense” por também ele considerar merecedora tal publicação.


quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

Número 14

A imagem do Santo Condestável, é o que sobressai no número 14 de “O Colmeal” na sua edição de 15 de Março de 1961.”… Portugal corria perigo de perder a sua independência. Tinha morrido D. Fernando e com ele, terminara a primeira dinastia dos reis de Portugal. Não havia sucessor. A sua única filha, D. Beatriz, estava casada com D. João, rei de Castela que pretendia mesmo à força das armas dominar e governar os portugueses. Mas, o bom povo português cheio de amor à sua Pátria não podia tolerar que um rei estrangeiro reinasse na sua terra. Reagindo prontamente contra todas as decisões perigosas. Aclamado rei, D. João I, o Mestre de Avis, foi nesta altura que surgiu a seu lado o homem providencial – D. Nuno Alvares Pereira a quem mais tarde investiu no cargo de Condestável, ou chefe do exército. Foi esta nobre figura de guerreiro, herói e santo que salvou Portugal do perigo que se aproximava. Homem de fé inabalável, católico fervoroso, sábio nas lides da guerra, conhecedor das astúcias do inimigo, confiava mais no auxílio de Deus e da Santíssima Virgem, que invocava até no campo de batalha, mais do que nas próprias forças e na dos seus soldados tantas vezes aterrorizados. Foi devido à sua valentia, à sua coragem, à sua fé em Deus e amor à Pátria que o ambicioso exército de Castela, embora maior em número de homens, foi sucessivamente derrotado pelas nossas diminutas tropas. O Herói e o Santo ganhavam todas as batalhas. D. Nuno Alvares Pereira que nasceu em Cernache de Bonjardim em 1360 acabou os seus dias no Convento do Carmo em Lisboa com o nome de Frei Nuno de Santa Maria depois de ter servido a Deus e à Pátria…”
Na primeira página, além da publicação da data da Assembleia-Geral da União Progressiva da Freguesia do Colmeal (19 de Março de 1961, às 14:00 no largo de S. Domingos, 14, 2º em Lisboa) que irá eleger os novos corpos sociais, vem também noticiado que no “…Grande Hotel Duas Nações, em Lisboa, num almoço promovido pela União Progressiva da Freguesia do Colmeal, em que tomaram parte oitenta e cinco convidados, foi homenageado o Sr. Acácio Mendes da Veiga, grande colmealense, consumado bairrista e antigo Presidente da Câmara Municipal de Góis. Ao banquete que decorreu em ambiente de perfeita amizade, Presidiu o ilustre colmealense Sr. Dr. Manuel Martins da Cruz, ladeado pelos Srs. Acácio Mendes, Comandante Gouveia, D. Maria Antonieta Costa, D. Marizete Martins da Cruz, D. Lúcia Fontes Duarte, D. Maria de Assunção Almeida, Padre Fernando Ribeiro, Eng.º Leonel Gonçalves e Tenente Afonso Neves e seu neto…usaram da palavra os Srs. Eng.º António dos Santos Almeida (Fontes), Presidente da União Progressiva…José Henriques de Almeida, Manuel da Costa, Afonso Baptista de Almeida, Pároco do Colmeal, Eng.º Leonel Gonçalves, Claudino Alves de Almeida e Tenente Afonso Neves que puseram em relevo as apreciáveis qualidades do homenageado…a sua acção bem m arcada através do concelho em várias obras que levou a efeito…Pessoas que não puderam comparecer, associaram-se a esta homenagem enviando cartas, telegramas, ou telefonemas…Estavam ainda representadas muitas colectividades regionalistas…Comissão de Melhoramentos Malhada e Casais, Comissão de Melhoramentos do Soito, de Alvares, das Cortes de Alvares, de Pomares, a Casa do Concelho de Góis, o Grupo de Amigos de Capelo, a Liga de Melhoramentos da Freguesia do Cadafaz, etc…”
“Marco do Correio” de Março de 1961, informa:
Colmeal: …realizou-se no dia 13… o “Aniversário da Almas” a que assistiu muita gente que fez a sua confissão quaresmal. Tomaram parte os Rev.º Párocos de Pampilhosa da Serra, Pessegueiro, Cadafaz, Fajão, Teixeira, Cepos e Colmeal.
Malhada: …11 de Fevereiro, na capela de S. José… realizou-se o casamento de José de Almeida Fernandes com Celestina dos Santos.
Lisboa: …no dia 26 de Fevereiro nesta cidade… o casamento do Sr. Manuel Mendes Domingos… com a menina Maria Alice Domingos

No espaço “Badaladas”, ainda não se sabe o valor para a aquisição da sineta mas o total de donativos até aquela data era de 1.736$60.
Também neste número, “O Colmeal” informa que a excursão, que será feita em “luxuosos autocarros” deve partir do Colmeal no dia 29 de Abril para regressar no dia 2 de Maio. O preço por pessoa será de 140$00 e dá conta que o trajecto visitará: Buçaco, Porto, Casa do Gaiato de Paço de Sousa, Guimarães, Braga (Bom Jesus e Sameiro), Viana do Castelo, Aveiro, Figueira da Foz, Coimbra, etc…
Para terminar, este mês, no espaço “Sempre Alegres” lê-se uma rábula de um homem de Sevilha e outro de Madrid que discutiam ciosas das suas terras. “- Dizia o de Sevilha: A catedral da minha terra tem um altar-mor tão grande e com tantas velas que o sacristão tem de começar a acende-las no princípio da Quaresma para as ter todas acesas no Sábado Santo! – Mas isso não é nada – diz o de Madrid – Na minha terra há uma lâmpada tão grande do Santíssimo que o sacristão para a acender tem de ir de barco pelo azeite fora…”

Colmealenses, por agora é tudo, até breve.

sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Número 13

O número 13 de “O Colmeal” saiu no dia 15 de Fevereiro e na primeira página era feita referência ao inicio do segundo ano do boletim:
“…com o número que hoje inicia o nosso jornal o segundo ano da sua existência. Faz agora um ano. Quantos cálculos e orçamentos, contas, hesitações e até desconfianças no futuro! Mas tudo isto se desfaz perante um momento de decisão: suceda o que suceder – pensámos há um ano – mas vamos experimentar ao menos por certos tempos… os colmealenses aceitaram-no com surpreendente carinho e agradável interesse: os assinantes multiplicaram-se e hoje já são impressos 800 exemplares! E mais ainda: normalmente os periódicos dão a sua faltinha de vez em quando – é lucro… pois nós não faltámos nenhum mês com a nossa folha! E sempre com uma ou mais gravuras… o saldo de facto é pequeno; mas resta-nos a consolação de “O Colmeal” ter feito algum bem, em vários aspectos… Ainda que mais não fizesse; ao menos levou a todas as partes do mundo o nome desta terra que por lá trás os seus filhos na esperança de um dia voltarem à casa onde nasceram. Lançamo-nos agora no segundo ano. Não nos podemos, é claro, meter em grandes despesas. Modestamente vamos singrando. Como o jornal é pequeno e “o que é pequeno tem graça”, toda a gente o quer. Louvado seja Deus!…O que é verdade é que “O Colmeal” venceu já um ano, continua com muita vida, há-de melhorar, aumentar até o seu tamanho ou o número de folhas, ou quem sabe um dia, com grande admiração para muita gente, se torna quinzenal? Tudo é possível, com a união de boas vontades e com a ajuda de Deus, que sem Ele, nada podemos fazer.”
Na mesma página podemos ler uma pequena nota referente ao violento assalto ao paquete “Santa Maria” dando “O Colmeal” graças a Deus por este já se encontrar na posse dos seus legítimos proprietários e pede protecção aos nossos governantes pedindo que rezemos pelos inimigos da nossa Pátria.


Nota:
Não vem escrito n”O Colmeal” mas penso ser bom contar aos amigos leitores que o navio “Santa Maria” era considerado um paquete de luxo. Era um navio a vapor, de casco em aço, construído em 1952. Foi destinado à carreira da América do Sul, para transporte de passageiros e de carga. Paquete de grande prestígio, e o único navio de passageiros português a manter uma ligação regular entre Portugal e os Estados Unidos da América, tornou-se palco da história recente de Portugal em 19 de Janeiro de 1961. Numa das suas viagens à América Central, entram num dos portos de escala, vinte membros da Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação, opositores aos regimes ibéricos. Um dia depois, noutra paragem, o comandante deste grupo, o capitão Henrique Galvão, exilado na Venezuela desde 1959, também embarca. O sequestro, que envolve a morte de um tripulante e dois feridos graves, dura cinco dias. Ao 5.º dia, o navio é detectado por um avião norte-americano, comprometendo, assim, o objectivo do plano de sequestro em atingir a costa de África. No dia 2 de Fevereiro, depois de quase duas semanas de sequestro, o paquete “Santa Maria” chega ao Recife, procedendo ao desembarque dos passageiros e tripulantes. Os sequestradores entregam-se no dia seguinte às autoridades brasileiras obtendo asilo político. O assalto do “Santa Maria”, entrou para a Ciência Política, ao introduzir a prática de sequestrar navios e aviões com fins políticos. Recuperado intacto, o “Santa Maria” volta à posse da Companhia Colonial de Navegação, regressando ao Tejo a 16 de Fevereiro. Sete anos depois, é sujeito a uma profunda modernização, passando a fazer cruzeiros à Madeira, Canárias e Caraíbas. Em 1973, ainda na saída da barra de Lisboa, sofre graves avarias. Após o cancelamento dessa viagem, é vendido e desmantelado.
Voltemos ao Colmeal…
Ainda na primeira página, faz-se referência a António Simões Lopes, ilustre colmealense nascido no Colmeal a 3 de Fevereiro de 1934.
“…Inteligente e aplicado, cedo se evidenciou nos bancos da escola primária começando por ser premiado desde a primeira classe. Com dez anos entrou no Liceu Nacional Luís de Camões que frequentou até ao 5º ano. Seus pais matricularam-no posteriormente no Instituto Comercial de Lisboa onde cursou durante quatro anos. Devido às suas boas aplicações foi dispensado do exame de admissão para o Instituto de Ciências Económicas a Financeiras. Quando cumpriu serviço militar, foi como Aspirante a Oficial Miliciano tomar parte nas manobras de Setembro de 1956. No dia 28 desse mesmo mês, na última noite em que se preparava para o regresso das manobras, uma violenta explosão de combustível numa viatura lhe causou graves queimaduras. Tratado nos Hospitais de Abrantes e de Tomar, foi internado no Hospital Militar Principal, onde foi assistido pelo Sr. Dr. Damião Pires que o operou treze vezes e o deu por curado ao fim de um ano e meio. Regressando à Administração Militar de Lisboa, foi chefe da Tesouraria da Arma de Artilharia, tendo sido posteriormente transferido como Alferes para os Serviços de Contabilidade da Força Aérea. Agora, é com vivo regozijo que ao nosso bom amigo, enviamos as nossas felicitações pela sua promoção a Tenente…”
Nesta edição de “o Colmeal”, são apresentadas contas referentes ao boletim. Existe um saldo de 37$20 e em cofre, 757$50 provenientes do pagamento de assinaturas do corrente ano. Ainda no que se refere a contas, os donativos para aquisição de uma sineta, perfazem a quantia de 1.336$60.
O Santo deste mês é S. João de Brito que nasceu a 1 de Março de 1647 em Lisboa e era descendente da família dos Reis. Como a sua alma corria grandes perigos na corte, resolveu entrar na Companhia de Jesus renunciando às vãs promessas da vida nobre. Partiu para a Índia onde trabalhou com tal ardor que recebeu o cognome de “Xavier Português”. Abstinha-se de carne, vinho e outros alimentos; caminhava descalço e com os pés a sangrar debaixo de sol ardente; foi injuriado pelos bárbaros e selvagens; assaltado e ferido pelos piratas; preso, chicoteado, raptado e exilado. Como Apóstolo incansável tudo suportava alegremente. A 4 de Fevereiro de 1693, infiéis cortaram-lhe as mãos e os pés, degolando-o de seguida. Provada sobejamente a sua Santidade, foi beatificado por Pio IX e canonizado por Pio XXI.
“Marco do Correio” de Fevereiro de 1961, informa:
Colmeal: Partiu para Lisboa onde vai fixar residência, a Sr.ª Maria Cecília de Almeida acompanhada de sua filha, Maria Augusta de Almeida.
Cabreira: … 14 de Janeiro… casamento do Sr. Victor dos Santos e Maria Alice do Rosário Martins
Cadafaz: Causou-nos satisfação a notícia da ligação do Cadafaz por estrada com o Tarrastal, fazendo os carros já o sue percurso até S. António, início da povoação.
Na última página de “O Colmeal”, Clarisse B. Sanches conta-nos uma rábula sobre dois avarentos:
“…Um ricaço, avarento, certo dia estando enfermo, já sem o menor alento, ao filho diz neste termo:
- Sinto-me desfalecer, que dizes, será melhor antes que venha a morrer, chamar o Senhor Doutor?
- Consultas? – volve este então que era mesquinho também; - custam hoje um dinheirão!...
- Concordo. Mas se não saro, o enterro, pensa bem, não ficará ainda mais caro?
Pois é! O que o dinheiro faz a alguns…
Colmealenses, por agora é tudo, até breve.


Henrique Miguel Mendes

Número 11 e 12

Com a imagem de um presépio e um texto alusivo à quadra natalícia, saía a 15 de Dezembro a edição número 11 de “O Colmeal”. “…O Natal deve ser para nós mais do que uma simples festa de família; será antes a grande festa da Família Cristã. Jesus nascido no humilde presépio vai pregar-nos mais uma vez o caminho da humildade, do sacrifício, do amor, a humildade da sujeição aos Seus Mandamentos, o sacrifício da aceitação resignada da vida, conforme com a caridade para com todos os homens e mesmo o perdão para os próprios inimigos. Foi por amor de nós todos que Jesus nasceu no presépio…””Gloria a Deus no Céu e Paz na Terra aos Homens…”
“Marco do Correio” de Dezembro informa:
Foz da Cova: “…2 de Novembro, foi baptizado… Filipe Nunes de Almeida…
Salgado: “…contraíram matrimónio no dia 26 de Novembro… Carlos Alberto e Irene de Almeida Vicente…”
Nesta edição, são alertados os leitores para o “10º Recenseamento Geral da População” que irá decorrer no dia 15 do corrente. “O Colmeal” alude à importância desta operação que se destina a averiguar qual é a população de Portugal e quais são as condições de vida e de trabalho existentes no país.
Na última página deste número, “O Colmeal” presta contas acerca do valor do peditório para a compra de uma sineta que já soma 821$60. Está planeada uma excursão ao norte do país com a duração de três ou quatro dias para o mês de Abril ou Maio com um custo previsto por pessoa de 140$00. Também nesta página, somos gracejados com um poema de Clarisse Barata Sanches que escreve o seguinte:

“Berço de Jesus
A soarem badaladas
Numa noite branca e fria
Sobre palhinhas doiradas
Jesus Menino nascia
S. José, Santa Maria
Vêem luzes encantadas!
E a sorrirem de alegria
Beijam-lhe as faces rosadas
Pequenino, o enxoval
Que lhe arranjou sua mãe
Bordados, rendas não tinha
E esse berço divinal
No presépio de Belém
Cedeu-lho e terna vaquinha.”


No início do ano de 1961, no número 12 de “O Colmeal” trazia na primeira página uma nota de rodapé que não cai em desuso: “…as pessoas que sabem pouco falam muito…”
Também nesta página surge uma bela imagem do Menino Jesus e um texto alusivo à fé e às dificuldades e facilidades que o novo ano trará. Na coluna da direita, uma fotografia do Rev.º Dr. António Duarte de Almeida e uma notícia a informar que foi nomeado para Chefe da Redacção do “Diário de Moçambique”. Folheando o boletim deste mês, na 2ª página podem-se ler os nomes dos mordomos e mordomas para o ano de 1961 e que iniciarão as suas funções no dia de Reis:
Santíssimo: António Ramos de Almeida e António Simões de Almeida
S. Coração de Jesus: António Ramos de Almeida
S. Sebastião: Manuel Moreira
N. S. Fátima: António Ramos de Almeida (filho)
N. S. Necessidades: Américo Gonçalves Nunes
S. António: Manuel Francisco de Almeida
S. José: António Martins de Almeida
Senhor da Amargura: Manuel Brás da Costa
S. Nicolau: Manuel de Almeida Neves
Das almas: José dos Santos Ferreira
Neste mês, o valor total em contribuições para a aquisição de uma sineta já vai nos 1.046$60 e na rubrica “Marco do correio”, as notícias eram as seguintes:

Quinta de Belide: Foi baptizada em 26 de Dezembro, Maria de Lurdes Vicente…
Carvalhal: Foi baptizada no dia 1 do corrente, Maria Filomena e António de Jesus Marques…
Também neste número, “O Colmeal” informa que no dia 20 será a festa de S. Sebastião, orago da nossa freguesia.
Colmealenses, por agora é tudo, até breve.



Henrique Miguel Mendes

Número 9 e 10

15 de Outubro de 1960. Neste dia, o número 9 de “O Colmeal” tinha na primeira página uma fotografia da festa do Colmeal acompanhada de mais umas palavras relativas à festa e mais algumas contas referentes a ofertas. Aos valores anunciados no número anterior, “O Colmeal” acrescenta mais 2.349$00 provenientes das aldeias da freguesia. Nesta edição, o Santo do mês é a Senhora do Rosário. “…no alvor do século XIII, propagava-se em grande parte da Europa, a nefasta seita dos albigenses. Os sinos tocavam de terror. As igrejas eram saqueadas, os mosteiros roubados, os sacrários violados…Nossa Senhora teve dó dos homens e ajudou-os. De Tolosa apareceu S. Domingos, como capitão predestinado para comandar a santa batalha. A arma que a Santa Mãe lhe deu, era o Rosário. Cem mil albigenses se converteram em 6 meses. Nossa Senhora triunfava. Três séculos mais tarde…os turcos maometanos… reúnem uma frota de 282 galés para conquistar os mares de Veneza e destruir a Europa cristã. O Papa S. Pio V, chamou os príncipes cristãos para lhes tolherem o avanço. As armadas inimigas encontraram-se no golfo de Lepanto no dia do Rosário…os soldados cristãos içaram a bandeira de Nossa Senhora no mastro mais alto da galé…e saudaram-na. Depois bateram-se como leões e alcançaram uma vitória como até então nunca se tinha visto. Era 7 de Outubro de 1571. Todos ficaram convencidos que Nossa Senhora tinha combatido a seu lado…S. Pio V instituiu a festa de Nossa Senhora das Vitórias no dia 7 de Outubro, que Gregório XIII chamou do Rosário de Nossa Senhora por se ter ficado a dever ao Rosário tão notável auxilio ao céu…”
No espaço “A vida de O Colmeal” faz-se referência ao facto de a anterior edição ter 8 páginas e terem sido impressos 700 exemplares. Em “Badaladas”, informam-se os leitores que a aquisição do novo sino já pode ser feita pois só faltam 237$50.
Em “Sempre alegres” foram publicadas 5 anedotas e para terminar a minha consulta deste número de “O Colmeal”, transcrevo a seguinte:
“A Sr.ª Gertrudes casou duas filhas há pouco, uma no Porto, outra em Lisboa. Uma vizinha encontrando-a na rua só, diz-lhe:
- Então Sr.ª Gertrudes, sempre sozinha?
- E que hei de eu fazer?...
- Ir viver com qualquer das filhas!
- Já pensei nisso mas um genro quer que eu vá para o Porto e o outro que eu vá Para Lisboa.
- Benza-os Deus, que genros tão carinhosos!…
- Sim, mas o que vive no Porto quer que eu vá para Lisboa, e o que está em Lisboa quer que eu vá para o Porto…”
O número 10 de “O Colmeal” dizia-nos nesta sua edição de 15 de Novembro de 1960 que “Embora modestamente celebramos o 4º centenário da Freguesia no dia 16 do corrente. O programa é simples: Missa em acção de graças com prática alusiva, bênção do sino novo comemorativo desta data, repique festivo e alguns foguetes. Todos os melhoramentos levados a efeito na nossa igreja durante o ano corrente foram integrados nas comemorações do 4º centenário”. Na primeira página faz referência à “Semana dos Seminários” que decorre de 13 a 20 de Novembro. Nessa semana deve-se orar, pedir a Deus muitas a Santas vocações sacerdotais, bons padres à Igreja e oferecer a esmola segundo as nossas possibilidades e com generosidade. Ainda nesta página surge o título “A vida muda-se mas não acaba”. Neste contexto, “O Colmeal” em nome da Santa Igreja convida todos os seus filhos no dia 2 de Novembro, a pensarem na vida de além-túmulo e a orar pelas almas que já partiram. O dia é de saudade, de luto, de tristeza mas sobretudo de preces pelos entes mais queridos. Vemos nesse dia o povo cristão em grande afluência entrar nos cemitérios, colocar flores e verter lágrimas sobre as campas e rezar fervorosamente.
No espaço “Badaladas” são apresentadas as contas relativas ao custo total do sino e do badalo para o outro que perfaz a quantia de 4.254$80. Como muitas pessoas quiseram e continuam a contribuir para esta campanha, foi iniciada uma outra que conta já com 254$10 para a aquisição de uma sineta para a Capela do Senhor da Amargura.
“Marco do Correio” de Novembro informa:
Colmeal: Para a construção do posto médico…foi recentemente oferecido o necessário terreno pelo Sr. Acácio Mendes da Veiga…
Aldeia Velha: No dia 23 de Outubro foi baptizado o menino José Brás Victor…
Carvalhal: Foi baptizado no dia 1 de Novembro o menino Arménio Nunes Baptista…
Salgado: …dia 5… realizou-se o casamento do Sr. José das Neves de Almeida com a Sra. Maria dos Santos de Almeida…
Ádela: …6 de Novembro foi baptizada a menina Ana Maria dos Santos Firmino…
Lisboa: …5 de Novembro na Casa das Beiras, uma festa levada a efeito pela União Progressiva da Freguesia do Colmeal a favor do Cofre de Beneficência da União…
Nesta edição de Novembro, “O Colmeal” brinda os seus leitores com uma apetitosa receita para o Natal.
Tigelada doce:
1. Prepare: 200 gramas de açúcar, 4 ovos, 100 gramas de queijo, 125 gramas de pão de forma, meio decilitro de leito e canela.
2. Misture o açúcar com uma colherzinha de canela em pó e os ovos e bata tudo muito bem. Parta o pão e o queijo em fatias muito fininhas e ponha em camadas alternadas (ora pão, ora queijo) numa forma bem untada com manteiga derretida, borrifando o pão com o leite bem quente e estendendo entra cada camada uma porção dos ovos que acabou de bater com o açúcar e canela.
3. Leve ao forno levando a cozes e sirva quente.

Bem, depois desta receita, até fiquei com água na boca…
Colmealenses, por agora é tudo, até breve.


Henrique Miguel Mendes

Número 7 e 8

Numa nota discreta da primeira página, lia-se no número 7 de “O Colmeal” que o Rev.º Padre André de Almeida Freire encontrava-se doente na Casa de Saúde (Coimbra). Neste dia 15 de Agosto de 1960, em destaque na mesma página, louva-se a elevada classificação na formatura em medicina do Exmo. Sr. Dr. António Martinho, casado a Sr.ª. Dª Maria Helena Martinho (Colmeal).
Santa Maria é o Santo deste mês e não pode deixar de ser a mais santas de todas as criaturas, Maria, Mãe de Jesus… foi sempre verdade unanimemente acreditada por todos que Nossa Senhora, após a Sua vida na terra, foi levada para o Paraíso. A arte cristã teve sempre uma especial predilecção…dedicaram-se igrejas e catedrais, santuários e ermidas, é figurada em tapetes e marfins, reproduziu-se em pórticos, capitéis, vitrais; os mais comoventes representam o transporte da Virgem ao céu acompanhada por multidões de anjos…Entrada no céu, Nossa Senhora foi coroada de Rainha e Advogada dos homens…
Continuando a falar nos nomes da nossa terra, “O Colmeal” de Agosto diz:
“…Loural - vem louro ou loureiro.
Soito – ou souto vem de “aglomerado de castanheiros” que em tempos idos eram abundantes.
Foz da Cova – a palavra foz deriva de fauce que significa goela. Assim como a comida passa da boca para o estômago através das goelas, a água passa do rio para o m ar através da foz. Assim Foz da Cova é o sítio onde tem que passar água que cai num outro sítio chamado Cova.
Penedo – não sei se ainda habita aqui alguém mas habitou. Chama-se assim porque deve haver ou ter havido alguma fraga ou pedra invulgar.
Malhada – Malhada pode significar mata de carvalhos ou o sítio onde os pastores guardavam os rebanhos e se abrigavam.
Quinta de Belide – propriedade e casal situado ao fundo da barroca de Belide.
Carrimá – terá sido a alcunha do seu primeiro habitante ou este nome terá a ver com carreiro mau que servia esta povoação…”
“Marco do Correio” dá as seguintes notícias:
Colmeal: A Câmara Municipal de Góis nomeou cantoneiro da estrada Rolão-Colmeal, o Sr. Manuel de Almeida Neves.
Àdela: Realizou-se no dia 10 a festa em honra de S. Lourenço…foi mordomo o Sr. Armando Neves da Costa…
Malhada: …festa em honra de S. José e Nª. Sr.ª de Fátima… no dia 11…foi mordomo o Sr. Eduardo de Almeida Nunes
Neste número, “O Colmeal” congratula-se pelos pedidos de assinaturas e dá a conhecer mais alguns nomes. Também dá conta que o peditório para a aquisição do sino já conta com 1.615$00.
No dia 15 de Setembro de 1969, saia o 8º número de “O Colmeal”. Na primeira página surge uma fotografia da procissão levada efeito durante a festa. Com uma notícia de duas páginas, refere-se a mais de 120 pessoas reunidas na festa do Colmeal onde a Filarmónica Avoense esteve presente. 27 Crianças fizeram a Comunhão Solene e não se renderam ao sol ardente durante o percurso da procissão. Este ano, reunindo as ofertas em dinheiro e géneros, a igreja arrecadou 2.500$00 e o S. da Amargura 4.000$00 que servirão para um melhoramento na capela a realizar brevemente.
Mais uma vez, penso que este assunto está na ordem do dia…
Numa página (3) deste número de “O Colmeal” há um quadro que ao lê-lo é impossível esconder um sorriso pelas boas maneiras que se recomendam, escritas numa letra minúscula e que diz o seguinte:
“Parece mal!...
- Repreender os criados ou os filhos crescidos diante de pessoas estranhas - Beber com a boca cheia - Fumar durante as refeições - Fazer gestos com o talher na mão ou fazer barulho com ele batendo nos pratos ou copos - Molhar o pão no molho - Partir o pão aos bocadinhos com a faca - Inclinar o prato para apanhar o resto da sopa com a colher ou pior ainda; levar o prato à boca - Apoiar os cotovelos em cima da mesa - Interromper as conversas - Usar o copo antes de limpar os lábios - Soprar a comida quente - Comer ou beber demais…
Neste mês, “O Colmeal” fala-nos do Arcanjo São Miguel. Tratando-se de uma criatura angélica, o anjo, ou melhor dizendo, o arcanjo (chefe dos anjos) São Miguel é um mensageiro de Deus… nas imagens pintadas ou esculpidas, os anjos aparecem representados como se fossem rapazinhos novos de longas vestes e brancas asas, isto porque é a única forma humana de os representar. A diferença entre o homem e o anjo é que o homem é espírito e corpo e o anjo é apenas espírito, por isso mais semelhante a Deus. São Miguel, o arcanjo, é o chefe dos anjos. Seu nome vem de Mi-ca-El, que quer dizer: “quem como Deus”.
No mesmo número pode ler-se: “…Á União Progressiva da freguesia do Colmeal, foi concedida pelo Sr. Ministro das Obras Públicas a comparticipação de 190.200$00 para os trabalhos de construção do caminho municipal de Rolão (EN112) e ramal para a povoação do Soito (entre Roçaio e Colmeal) …“ “…a Cabreira… viveu no passado dia 27 de Agosto um dos dias mais felizes… pelo acto inaugural do primeiro troço de estrada (Góis – Cabreira). Assistiu o Sr. Governador Civil, Sr. Presidente da Câmara de Góis e outras individualidades de relevo…pela Comissão de Melhoramentos da Cabreira foi oferecido um almoço a que presidiu o Sr. Eng.º Horácio de Moura e durante o qual se trocaram amistosos brindes e votos…insistindo… para que continuassem…o prosseguimento da mesma estrada…até ao seu fim, ligar a sede de concelho a outras povoações isoladas…nomeadamente as sedes de freguesia do Cadafaz e Colmeal…”
Nesta edição de Agosto e devido ao espaço ocupado pela notícia da festa do Colmeal, o boletim reparte a sua secção “Marco do Correio” por 3 páginas repletas de muitas novidades e que passo a referir algumas:
Colmeal: …15 de Agosto na Capela do Senhor da Amargura… casamento do Sr. Mário Mendes Domingos com a menina Arminda da Conceição silva… no mesmo dia recebeu o Baptismo o menino Mário de Jesus Martins… No dia 28 foi baptizado o menino José Joaquim Moita… No dia 27 deflagrou um violento incêndio na “Boiça do Vinagre” que causou enormes prejuízos em pinhais e olivais numa extensão pertencente ao Colmeal, Carvalhal e Aldeia Velha.
Malhada: …no dia 11 de Agosto foi baptizado os meninos Manuel das Neves de Almeida e Rosa Maria Ramos da Cunha…
Soito: …18 de Agosto casou-se o Sr. José Henriques dos Santos (Cepos) com a menina Anunciação dos Santos… 2 de Agosto foi baptizado Sérgio Manuel Anunciação Duarte e a 28 de Agosto foi baptizada a menina Margarida de Jesus.
Sobral: Foi baptizado no dia 17 o menino Fernando de Almeida
Açor: No dia 20 realizou-se a festa anual em honra de Nossa Senhora da Saúde…foi mordomo o Sr. Francisco Gonçalves. Foi baptizada a menina Silvina Martins dos Santos.
Aldeia Velha: Realizou-se como costume no dia 22 a festa em honra de Nossa Senhora do Livramento…foram mordomos os Srs. Manuel Domingos de Almeida, José Francisco e Armando Moreira (Loural).
Àdela: ...tivemos conhecimento de algumas sugestões através do Sr. José Fontes, em especial a reparação da rua principal deste lugar…
Lisboa: Com óptimas classificações completou o 5º ano no Liceu Gil Vicente, o Sr. António Domingos dos Santos…obteve também o 1º prémio da Livraria Bertrand no 2º Ano de escola francesa.
Na última página deste número dá-se conta do valor dos donativos para a compra de um novo sino que é de 3.261$00 e surge uma história engraçada no espaço “Sempre Alegres” que diz assim:
“…- Na minha terra há um rio onde se pescam seis peixes de cada vez que se atira o anzol.
- Isso não é nada. Conheço um lago na minha terra onde é preciso enxotar os peixes para o anzol poder entrar na água!...”
Colmealenses, por agora é tudo, até breve.

Henrique Miguel Mendes

Número 6

Dia 15 de Julho do ano de 1960 saía a edição número 6 de “O Colmeal” trazendo na primeira página uma fotografia da ponte sobre o rio Ceira e em seu contorno é falado sobre “O Colmeal de ontem e de hoje” de onde passo a transcrever parte desse texto:
“… quem conhece a freguesia do Colmeal… tem a felicidade de notar quantos esforços se tem feito em ordem do progresso. Tenho por vezes já idealizado um Colmeal de há cinquenta e de há cem anos, com muito mais do dobro da população actual, completamente isolado, de casario negro e dá até vontade de considerar infeliz toda essa gente de então… não pensavam em progresso nem conheciam o que era isso! …há anos começou-se a caminhar: quantos sacrifícios inauditos, quantas privações, trabalhos e canseiras, horas roubadas ao repouso, dispêndios subtraídos às magras economias e até lágrimas se terão vertido para que hoje possamos viver no meio do conforto… percorrendo a freguesia de um extremo ao outro quantas coisas novas e úteis encontramos! … tantas estradas serpenteiam as encostas, há lindos e artísticos marcos fontenários, lavadouros modernos com água canalizada, escolas, formosas e brancas capelas, uma rede telefónica num total de catorze telefones a todos os lugares… o progresso segue a ritmo acelerado…um largo de incomparáveis proporções na região… estuda-se o problema da luz eléctrica, foi criada pelos C.T.T. uma estação telégrafo-postal..espera-se que a almejada estrada acabe por descrever nas encostas…até que ao menos fique junto à ponte sobre o rio Ceira…o presidente da União Progressiva, Sr. António dos Santos Almeida (Fontes)…manifestou-se animado da melhor vontade e interesse por que todos os melhoramentos em curso sejam dentro em breve uma consoladora realidade…”
É caso para dizer: Abençoados tempos…
Neste número, Santa Maria Goretti é o Santo do mês. Foi canonizada por Pio XII e é um exemplo para todos que devem cultivar o amor pela pureza e respeito do seu corpo. Maria era italiana, não sabia ler nem escrever mas percorria quinze quilómetros a pé para assistir à Missa fosse verão ou inverno. Foi vítima de abusos sexuais quando criança e perdoou o seu agressor antes de falecer a 6 de Julho de 1902.
“Marco do Correio” de Julho, informava além de outros assuntos de menor destaque:
Carvalhal: …15 de Junho realizaram-se os seguintes baptizados: Irene de Almeida Gonçalves… Maria Natália de Almeida Nunes… Maria de Lurdes Fernandes Moreira.
Àdela: Procedendo à abertura de covas destinadas à colocação dos postes telefónicos, foram atingidos pelos estilhaços de um tiro que não explodiu na devida altura, Laurentino da Silva Martins Ferreira e Júlio Francisco de Almeida…
De Lisboa: Realizou-se o casamento do Sr. António de Olivença de Almeida com a Sra. Dª. Ilda Baptista Martins.
Nesta edição de Julho é também publicada uma lista com o nome dos alunos da freguesia que fizeram exame do 2º grau ficando todos aprovados:
Carminda Gaspar Freire e Natália Simões da Ascenção – Colmeal; Irene de Almeida Fontes e Maria de Lurdes da Silva – Soito; Marília de Jesus Nunes, António Olivença e José dos Santos Gaspar – Malhada; Américo Joaquim – Aldeia Velha; Maria Helena Martins e Maria de Jesus Martins – Carvalhal.
“Badaladas” informa que o sino custa 4.200$00 e a soma das ofertas já fazia a quantia de 943$00… (Se fosse hoje, eu oferecia o sino)
Colmealenses, por agora é tudo, até breve.


Henrique Miguel Mendes

sábado, 23 de Fevereiro de 2008

Número 5

O número 5 de “O Colmeal” data de 15 de Junho de 1960. Na 1ª página uma fotografia de Santo António é acompanha todo um texto dedicado ao santo do mês. Junho designa-se por “dos santos populares” Santo António, São João Baptista e São Pedro. Mas “O Colmeal” lamenta o facto de muitos os conhecerem apenas como padroeiros de romarias, a presidem do alto dos seus tronos e conta-nos a história do Santo do mês. Junto da Sé de Lisboa, em frente da sua porta principal encontrava-se a residência do cavaleiro Fernando Martins de Bulhão, onde em 1190 nasceu seu filho de nome Fernando. Fernando de Bulhão cresceu como todas as crianças, seus pais eram abastados e sua mãe, mulher de grandes sentimentos e socorro dos pobrezinhos das redondezas. Fernando, na escola imitava a sua mãe no carinho com que tratava os colegas mais desfavorecidos. Foi aluno na Sé de Lisboa e aos 15 anos saiu da capital indo estudar para o convento de São Vicente e fez-se noviço da Ordem de Santo Agostinho onde mais tarde foi construída a Igreja de São Vicente. Fernando preferiu a vida do sacrifício às honras que podia vir a ter na Corte. Para se entregar a Deus transferiu-se para Coimbra, para o convento de Santa Cruz. Além de atender os pobres que todos os dias lá iam pedir esmolas, estudou muito, rezava e aludia aos pobres. Certo dia chegaram da Itália cinco frades franciscanos que iam para Marrocos pregar o Evangelho aos mouros e Fernando falou com eles. Passado algum tempo chegaram a Coimbra os restos mortais dos cinco frades que tinham sido mortos pelos mouros. Então, Fernando teve de Deus a inspiração de os substituir na pregação a África tornando-se franciscano indo morar para os Olivais nas ruínas do antigo convento de Santo Antão. Aí mudou de nome e em homenagem a Santo Antão que em latim se diz António, passou a chamar-se António. Em Setembro de 1220 Frei António parte para África mas adoeceu devido à viagem tormentosa que fez e voltou a Portugal. No regresso, um furacão levou o barco para a Sicília. António dirigiu-se a Assis onde vivia São Francisco, fundador dos franciscanos. Ninguém lhe deu importância pois era um frade estrangeiro, mal-encarado pelas doenças e viagens, todo esfarrapado e não sabia falar a língua daquela terra. O Frei António lava loiça a limpava a hortaliça até um dia em que preciso fazer um brinde em homenagem a uns novos sacerdotes que nesse dia eram hóspedes. O superior do convento escolheu António para falar e para grande surpresa de todos, António falou em latim clássico, citou a Sagrada Escritura e os grandes doutores da Igreja. São Francisco, nomeou-o então mestre de toda a ordem e então começou a pregar em Itália e sul de França sendo seguido por multidões para o ouvir e criar seus milagres. António faleceu em Pádua e daí alguns lhe chamarem Santo António de Pádua mas para nós portugueses é Santo António de Portugal.
Neste 5º número de “O Colmeal” é anunciado que a festa está marcada para dia 14 de Agosto, assim como a Comunhão Solene das crianças e dá conta de mais pessoas que assinaram o jornal. Destaca o envio de uma carta do Dr. Marcelo Caetano dizendo que “O Colmeal” é um precioso documento que arquiva que tanto bem pode fazer naquelas paragens serranas… A campanha para a compra de um sino chama-se desde este número de “Badaladas” e publica os nomes de quem contribuiu assim como os respectivos valores.
Continuando com “Os nomes da nossa terra”, nesta edição, Carvalhal vem de carvalho. Muitas pessoas conheciam pelo nome de Carvalha e Sarnoa. Como existem muitas povoações com esse nome, para distinguir esta da freguesia do Colmeal, chamaram-lhe do “Sapo”, talvez por ser a alcunha dada ao nome da mata… Aldeia Velha, diz-se que havia lá um casal com esse nome… Safredo vem de sáfaro que significa lugar inculto, cheio de penhascos… Porto-Chão significa porto/sitio abrigado e chão quer dizer plano. Porto-Chão é portanto uma propriedade plana num sítio abrigado… Coiços é a curva do rio ou ribeiro onde a água quer ir sempre em frente dando encontrões nas paredes que a obrigam a dar curvas… Roçaio vem de roça que significa matagal. Diziam os agricultores que o mato do Roçaio era melhor de “botar” por ser mais leve. Nesse mato havia muitos tojos brancos, o que dava bom estrume.
“Marco de Correio” deste mês dá conta que:
Colmeal: Os trabalhos de pintura e douramento do altar-mor da igreja foram feitos pela oficina “Gomes-Arte” (Coimbra) já estão completos. No dia 29 de Maio foi baptizado… Rui Manuel dos Santos Lopes…
Malhada: … 5 de Junho recebeu o Sacramento do Baptismo Maria Helena Marque Olivença…
Sobral: Contraíram matrimónio… António de Almeida e Dionísia Vicente…
Carvalhal: 24 e 25 realiza-se a festa em honra de S. João Baptista… haverá terço e sermão de promessa N. S. do Bom Parto… mordomos; Srs. José Marques Costa e Manuel Pedro…
Para terminar, “O Colmeal” noticia que nos limites do Soito e de Foz da Cova trabalha-se activamente na terraplanagem e reparação de terrenos para elaboração de uma grande propriedade com o nome de “Quinta das Águias” pertencente ao Senhor Manuel Nunes de Almeida onde pretende valorizar a enorme extensão de terreno onde não irá escassear o trabalho diário de muitos homens.
Colmealenses, por agora é tudo, até breve.

Henrique Miguel Mendes